A POLÍTICA
BRASILEIRA NA RODA-GIGANTE
Margarida Drumond
de Assis
O momento político por que passa o país, hoje, é mesmo o de nos colocar
em alerta. Vê-se bem quanto são grandes os prejuízos sociais e econômicos
enfrentados pela imensa maioria da população e quanto é instável a
possibilidade de a presidente Dilma Rousseff governar o país e de o Senado e a
Câmara cumprirem com suas funções pelo bem do povo.
O desemprego crescente atinge mais de onze milhões de brasileiros o que,
naturalmente, leva à recessão, pois, sem dinheiro, as pessoas deixam de
investir em compras e, quando o fazem, atêm-se ao necessário, optando pelo que
está mais em conta; sem poder de compra, a alimentação é regrada, comprometendo
a saúde. Resultado é que a pessoa se enfraquece, fica mais fragilizada e
adoece, e tal acontecendo vem a dificuldade com o atendimento médico:
faltam desde médicos, equipamentos para exames, a própria medicação e até o
básico que lhe permitiria aguardar bem acomodado, enquanto se recuperasse. Faltam
leitos, lençóis, tudo. E se o doente, em alta hospitalar, precisa da medicação
prescrita, aí tudo se complica: não havendo como fazê-lo, a pessoa se vê sem
expectativa para retomar sua vida, voltando a trabalhar e, assim, engrossa as
estatísticas dos que vivem improdutivos para o país, sem trabalho, sem renda e
precisando de ajuda.
Todo esse quadro leva-nos à constatação de que vivemos um caos, e outro
quadro aviltante vai se tornando claro: empresários e consumidores não vão mais
aos bancos pedir empréstimo e se percebe que a demanda já há bem tempo está em
queda, retraída; quem deseja comprar algo para si ou para sua família, quem
sabe desejoso de um investimento em imóvel ou na reforma da casa, não o faz
mais, enquanto de seu lado os empresários, além de não investirem em
maquinário novo, também reduzem o quadro de pessoal.
Esses dados dirigem nosso pensamento e atenção na direção de nossos
governantes. Mas o que vemos? Executivo e Legislativo não mais se entendem, há
uma intransigência incomum que impossibilita o diálogo, tudo resultando em
acusações de uns contra os outros. Na Câmara e no Senado, cada vez se torna
mais difícil encontrar quem não esteja ligado a um processo por corrupção,
lavagem de dinheiro, envolvimento com tramoias tantas que envergonham os
brasileiros que já pensam como farão para votar em 2018, se tão logo o
representante assume o poder, lhe cresce a vaidade e o interesse em beneficiar
a si mesmo.
No tocante à presidente Dilma Rousseff, quem não se lembra de quanto
crescia a sua popularidade, desde sua posse em 2010? Batia recordes, com todo
mundo orgulhoso por ver uma mulher no governo do país, a mesma que bravamente
vencera as intempéries que surgiram em seu caminho, como a prisão na época da
ditadura. E essa história somava-se ao valoroso projeto de bem governar o
Brasil, fazendo-o crescer, dando atenção também às classes menos favorecidas.
Mas os anos se seguiram e cresceram os problemas, desestruturando
planos, atravancando soluções possíveis pelo bem do povo. Cresceram as discussões
por envolvimento de nossos políticos em escândalos , como os do Mensalão e da
Operação Lava Jato. Dilma já não se achou mais, perdeu-se em meio aos que a
rodeavam. E passamos a ver deputados e senadores utilizando o espaço onde antes
se votavam leis pelo bem da nação, agora como palco de acusações e
injúrias de uns contra os outros - "Vossa excelência é um canalha!",
já diziam - a maioria desfiando deslavadas desculpas alegando inocência. E vai
um deputado preso, mais outro, vai um senador e mais outro, às vezes três,
quatro deles de uma vez, chegando ao ponto de na Presidência da Câmara
permanecer um deputado já acusado por lavagem de dinheiro, concussão e outros
crimes, deputado Eduardo Cunha.
Fato é que cresceram os embates, tantos foram os casos de corrupção
descobertos, e o assunto veio à tona. O governo Dilma se viu sem chance de
governabilidade; passou a ser acusado de infringir a Constituição, o que, como
temos visto, o impeachment lhe é ilegítimo.
E, agora, nove de maio de 2016, o que vemos é: de um lado a presidente
que luta para não deixar o poder a ela conferido por milhões de eleitores.
Tenta desvencilhar-se de ser empurrada para debaixo do tapete, aceitando a
renúncia de mandato - afina, ela vê os acontecimentos, as acusações que
lhe impingem, como pura vingança de quem não a quer à frente do governo do
país, ela uma mulher; ela vê as retaliações como algo injusto.
DE outro lado, via-se o relutante Cunha, declaradamente visto em vários
processos, como alguém nocivo ao país. Porém, ele permanecia na casa, chegando
a dirigir as votações do impeachment, embora protestos dos deputados que,
naquele evento, antes de dizerem o "sim" ou o "não" quanto
à saída da presidente Dilma Rousseff, dirigiam-se indignados a Eduardo
Cunha, acusando-o de ser indigno de ser o presidente da Câmara e da Mesa,
naquela votação.
Os confrontos prosseguiam e a
população, indignada, voltou às ruas, também dividida como deputados e
senadores. Aceita-se ou não o Impeachment? Caos geral é o que resultou; brigas,
prisões em meio às manifestações. E nesse mi mi mi sem conta, a confusão
prolongando-se. Ficam os projetos de interesse nacional esquecidos, sem
votação.
Felizmente, o Superior Tribunal Federal -STF se manifestou, na pessoa do
ministro Teori Zavasck, fazendo ver o poder da Alta Corte: interveio como
moderador, pondo fora da Câmara o deputado Eduardo Cunha, contando com apoio de
toda a Corte: 11 x 0. O STF se fez esteio para que prevalecesse o Estado
democrático de direito, impôs limites à bagunça que se via e envergonhava o
país.
Mas a situação não está resolvida, há indecisões no cenário, tanto no
tocante à saída da presidente, pelo prazo de 180 dias, enquanto o Supremo
decide sobre o julgamento final do impeachment quanto a Câmara decide se
assume o vice Waldir Maranhão ou se escolhem um novo presidente.
Enquanto isso vemos o vice de Dilma, Michel Temer, correr para montar
seu possível governo, até já anunciando mudanças, como a redução no número de
pastas no Ministério, parecendo ter como certo que continuará ele na
Presidência foi Brasil, caso assuma com o afastamento da Presidente, pela
votação do Senado, neste dia 11 de maio. E nos perguntamos se ela, caso
afastada, terá como reunir forças políticas que lhe favoreçam retornar ao
poder.
Uma coisa fica-nos clara: toda essa turbulência, tantos desajustes como
os que temos visto - á noite dormimos com um cenário e ao acordarmos temos
outro - devem nos servir de sinal para melhor escolhermos nossos representantes
nos próximos pleitos. Não podemos mais nos sujeitar a um clima de
insatisfação e até mesmo de desespero em meio a tanta corrupção, tantas
mentiras, fazendo aumentar a tensão da população que vive em sofrimento, à
revelia de uma competente assistência à Saúde, à Educação, à Segurança...
tudo emperrando o desenvolvimento da nação e o bem-estar das pessoas.
Margarida Drumond de Assis é escritora, jornalista e professora em
Brasília; membro da Academia de Letras e Música de Brasília - ALMUB e da
Associação Nacional de Escritores – ANE.
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