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quinta-feira, 20 de abril de 2017

BRASÍLIA, 57 ANOS - UM POUCO DE SUA HISTÓRIA



        BRASÍLIA, 57 ANOS - UM POUCO DE SUA HISTÓRIA

Margarida Drumond de Assis

Nesta semana, o Brasil tem uma importante data da qual se lembrar e dela fazer memória: 21 de abril. Recordamos Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746), em sua luta pela liberdade na Inconfidência Mineira; Tancredo de Almeida Neves, primeiro Presidente Civil eleito após a ditadura militar que durou vinte e um anos, mas que misteriosamente morreu antes de sua posse (1985); e também nos lembramos do aniversário da Capital da República, Brasília, inaugurada que foi, em 1960, pelo também mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira (12.09.1902). Os três marcaram de forma indelével a história do Brasil, mas é sobre Brasília que prosseguiremos neste espaço, e, isto, tanto pelo que ela simboliza - enquanto cidade de rara beleza com sua arquitetura, seus espaços abertos, jardins e parques, seu céu espetacular, pelas oportunidades que oferece para estudo e trabalho, pela comunidade que aqui habita - quanto pela vida que nela pulsa incessantemente, pelo bem da Capital e do país.
É bem verdade que hoje, politicamente falando e considerando ser Brasília o centro do Poder, vivemos com ela crucial momento. A atenção do Brasil se volta, sim, para a Capital, mas, contrariamente ao que gostaríamos, isto se dá pelos fatos ligados à corrupção, quando então as palavras que se ouvem todo o tempo são: Caixa Dois,  Mensalão, Odebrecht, Delação Premiada,  Lava Jato, entre outras. Perplexos, somos levados a pensar que a crise no País, hoje, é muito mais devido a um problema econômico, parece mais uma questão de ética, pois o que se percebe é sua ausência na maioria de nossos representantes. Consequentemente, em meio a esse caos, Brasília e sua história, a sua beleza, podem perder um pouco de seu brilho.
Em um olhar pela história remota, encontramos um dos mais importantes nomes desse meio no País, o do historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen, patrono da Cadeira 39 na casa de Machado de Assis, a ABL, o paulistano de Sorocaba, de  17 de fevereiro do longínquo ano de 1816. Adirson Vasconcelos, querido amigo e confrade acadêmico nesta Capital, conceituado historiador de Brasília, em seu livro Bicentenário de nascimento de Varnhagen 1816 -2016, enalteceu esse relevante nome de nossa história, quando de sua fala no ano passado, lá mesmo em Sorocaba, na celebração da importante data. Desde que li a obra, muito desejo discorrer a respeito, e o faço agora no aniversario de nossa Capital, esta Brasília para onde vim, inicialmente nos anos 70; depois novamente nos anos 80, e, por fim, pisei neste solo querido em 14 de janeiro de 1994, e comigo meus três filhos ainda adolescentes. Quem aqui aporta, com coragem e desejoso de melhores condições de vida, pronto para novas experiências, se apaixona pela cidade. É, pois,  ocasião de recordar um pouco seu início; daí, nos chega o nome do histórico Varnhagen, também conhecido por Visconde de Porto Seguro.
Era o Rio de Janeiro a sede do país, mas já se falava em transferir a Capital para o interior; fácil não era e Varnhagen lançou um questionamento: se, à época, não haveria coragem, força política e fé para legislar a mudança da Capital. E ele próprio respondeu: “Vamos ensaiando qual é o lugar que se poderá ir considerando como substituto do Rio, ao menos para quando (Deus as arrede) a peste ou a fome ou a guerra nos obrigarem repentinamente a buscar um refúgio longe do litoral”. E, de fato, após muito refletir e de  escrever um livro, a respeito, o decidido defensor da interiorização da Capital sugeriu o local, o mesmo onde, cinquenta anos depois, Luiz Cruls “posicionaria a área da futura capital, incluído no triângulo formado pelas três lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas”, fazendo minhas as palavras do colega de jornalismo e também escritor Adirson.  Assim definiu, em 1857, Varnhagen: “(...) e isto quando a própria Providência concedeu ao Brasil uma paragem mais central, mais segura, mais sã e própria a ligar entre si os três grandes vales do Amazonas, do Prata e do São Francisco, nos elevados chapadões, de ares puros, de boas águas, e até de abundantes mármores, vizinhos ao triângulo formado pelas três lagoas Formosa, feia e Mestre d’Armas, das quais manam águas para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata”.
No intuito de confirmar seu propósito, Francisco Adolfo Varnhagen, então diplomata do Brasil em Viena, licenciou-se por seis meses e, em junto de 1877, rumou para cá, percorrendo grandes percursos em lombo de burro e também caminhando quase cinquenta quilômetros por dia, desde bem cedo, em cada manhã. Decerto, ele se viu extenuado muitas vezes, mas ainda assim prosseguia. Foi então que chegou à região que tanto procurava. Tinha ele 61 anos de idade e viria a falecer no ano seguinte, não sem antes reunir toda a sua teoria e experiências, mostrando a real necessidade da interiorização da Capital do Brasil, transferindo-a para este Planalto Central no Goiás. E ele mesmo editou, naquele ano, o seu livro A questão da Capital: marítima ou no interior?, nele registrando também o que já escrevera a respeito desde 1839.
E outro importante dado cumpre-nos recordar: em 30 de agosto de 1883, Giovanni Melchior Bosco, nosso conhecido Dom Bosco, italiano de Turim, sonhou com a fundação de Brasília. Em parte do sonho, ele viu aproximar-se um jovem com quem viajaria pela América Latina. Saíram da Venezuela, atravessaram regiões de densas matas e caudalosos rios; viajaram pela Cordilheira da America do Sul; por bosques e planícies, até que entre os paralelos 15º e 20º viram uma enseada bastante extensa que partia do ponto onde se formava um grande lago.
            Mas, afinal, o que se deu para ser Juscelino Kubitschek o construtor de Brasília? Sobre esse mesmo tema, já pelo amor a esta cidade que me acolheu, vinda de Timóteo, também terra das alterosas, escrevi para a Antologia Brasília, colunas de concreto: sustentando as bases do amanhã (2010), organizada pelas confreiras e amigas Meireluce Fernandes da Silva e Maria de Lourdes T. de Almeida Fonseca, e de lá, entre outros escritos, trago alguns dados. Bem, nosso mineiro de Diamantina, já ligado às dificuldades da vida desde bem pequeno,  órfão de pai ainda aos dois anos de idade, Juscelino Kubitschek conhecia as dificuldades e, no exemplo de sua mãe Júlia, aprendeu a lutar. Era atento e estudioso, e, neste crescer, formara-se médico, tornara-se político. E aconteceu que estava JK em comício de campanha presidencial em Jataí, solo goiano, quando um eleitor lhe perguntou se, ele, eleito, cumpriria a Constituição fazendo vir a Capital para o Planalto Central. Ousado como era, disse que sim, embora os próprios amigos não acreditassem nesse feito. Mas a história mostrou o contrário, e a transferência da Capital ocorreu em 19 de setembro de 1956, quando se estabeleceram os limites do novo Distrito Federal. As eleições de outubro de 1955 tinham dado a vitória a Juscelino, e ele assumiu o País em 31 de janeiro do ano seguinte.  E o nosso eterno presidente, em sua primeira visita ao local que hoje é Brasília, assim proferiu: “Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Assim, no dia 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada, tendo o Presidente contado, na luta pelo seu ideal e pelo bem do país, com apoio de valorosos candangos e o companheirismo de Bernardo Sayão, Israel Pinheiro, Ernesto Silva, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, Roberto Burle Marx, entre tantos outros. Mas, bem o sabemos, Juscelino Kubitschek de Oliveira foi atingido pelo golpe militar da época e teve que se exilar na Europa. Em junho de 1964, deixou Brasília, cidade que ele amava e pela qual tanto lutara, só retornando em 1967, e, a poucos dias de completar 74 anos de idade, morreu em suspeito acidente no quilômetro 165 da Via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
            Então, por todo o exposto, temos como certo que Brasília nasceu da convicção e luta de valorosos homens, vimos que ela se constitui na realização de um sonho e desejo de tantos. Por Brasília devemos, não apenas nós que estamos neste Planalto central, mas todos os brasileiros, lutar para que ela continue lembrando os reais propósitos dos que aqui depositaram sua vida, os que por este chão lutaram, tenazmente.  E, assim, receba Brasília nestes seus 57 anos, nosso amor e atenção, embora políticos e empresários desonestos a vilipendiem. A tudo sobreponham a garra e a determinação dos que por Brasília já lutaram; prevaleça sobretudo a vontade e a luta para que possa esta Capital ser o palco de boas realizações para todo o povo brasileiro.  
 
                                                                                  Brasília, 19 de abril de 2017.




Margarida Drumond de Assis é  professora, jornalista e autora de mais de uma dezena de livros editados, entre romances, poesias, biografias e outros gêneros literários. É membro da Academia Taguatinguense de Letras – ATL e da Academia de Letras e Artes do Brasil – ALMUB www.margaridadrumond.vai.la  Contato: margaridadrumond@gmail.com


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