BRASÍLIA,
57 ANOS - UM POUCO DE SUA HISTÓRIA
Margarida
Drumond de Assis
Nesta semana, o Brasil tem uma
importante data da qual se lembrar e dela fazer memória: 21 de abril. Recordamos
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746), em sua luta pela liberdade na
Inconfidência Mineira; Tancredo de Almeida Neves, primeiro Presidente Civil
eleito após a ditadura militar que durou vinte e um anos, mas que
misteriosamente morreu antes de sua posse (1985); e também nos lembramos do
aniversário da Capital da República, Brasília, inaugurada que foi, em 1960,
pelo também mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira (12.09.1902). Os três
marcaram de forma indelével a história do Brasil, mas é sobre Brasília que
prosseguiremos neste espaço, e, isto, tanto pelo que ela simboliza - enquanto
cidade de rara beleza com sua arquitetura, seus espaços abertos, jardins e
parques, seu céu espetacular, pelas oportunidades que oferece para estudo e
trabalho, pela comunidade que aqui habita - quanto pela vida que nela pulsa
incessantemente, pelo bem da Capital e do país.
É bem verdade que hoje, politicamente
falando e considerando ser Brasília o centro do Poder, vivemos com ela crucial
momento. A atenção do Brasil se volta, sim, para a Capital, mas, contrariamente
ao que gostaríamos, isto se dá pelos fatos ligados à corrupção, quando então as
palavras que se ouvem todo o tempo são: Caixa Dois, Mensalão, Odebrecht, Delação
Premiada, Lava Jato, entre
outras. Perplexos, somos levados a pensar que a crise no País, hoje, é muito
mais devido a um problema econômico, parece mais uma questão de ética, pois o
que se percebe é sua ausência na maioria de nossos representantes. Consequentemente,
em meio a esse caos, Brasília e sua história, a sua beleza, podem perder um
pouco de seu brilho.
Em um olhar pela história remota,
encontramos um dos mais importantes nomes desse meio no País, o do historiador
e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen, patrono da Cadeira 39 na casa de
Machado de Assis, a ABL, o paulistano de Sorocaba, de 17 de fevereiro do longínquo ano de 1816.
Adirson Vasconcelos, querido amigo e confrade acadêmico nesta Capital,
conceituado historiador de Brasília, em seu livro Bicentenário de nascimento de Varnhagen 1816 -2016, enalteceu esse
relevante nome de nossa história, quando de sua fala no ano passado, lá mesmo
em Sorocaba, na celebração da importante data. Desde que li a obra, muito
desejo discorrer a respeito, e o faço agora no aniversario de nossa Capital,
esta Brasília para onde vim, inicialmente nos anos 70; depois novamente nos
anos 80, e, por fim, pisei neste solo querido em 14 de janeiro de 1994, e
comigo meus três filhos ainda adolescentes. Quem aqui aporta, com coragem e
desejoso de melhores condições de vida, pronto para novas experiências, se
apaixona pela cidade. É, pois, ocasião
de recordar um pouco seu início; daí, nos chega o nome do histórico Varnhagen,
também conhecido por Visconde de Porto Seguro.
Era o Rio de Janeiro a sede do
país, mas já se falava em transferir a Capital para o interior; fácil não era e
Varnhagen lançou um questionamento: se, à época, não haveria coragem, força política
e fé para legislar a mudança da Capital. E ele próprio respondeu: “Vamos
ensaiando qual é o lugar que se poderá ir considerando como substituto do Rio,
ao menos para quando (Deus as arrede) a peste ou a fome ou a guerra nos
obrigarem repentinamente a buscar um refúgio longe do litoral”. E, de fato,
após muito refletir e de escrever um livro,
a respeito, o decidido defensor da interiorização da Capital sugeriu o local, o
mesmo onde, cinquenta anos depois, Luiz Cruls “posicionaria a área da futura
capital, incluído no triângulo formado pelas três lagoas Formosa, Feia e Mestre
d’Armas”, fazendo minhas as palavras do colega de jornalismo e também escritor
Adirson. Assim definiu, em 1857,
Varnhagen: “(...) e isto quando a própria Providência concedeu ao Brasil uma
paragem mais central, mais segura, mais sã e própria a ligar entre si os três grandes
vales do Amazonas, do Prata e do São Francisco, nos elevados chapadões, de ares
puros, de boas águas, e até de abundantes mármores, vizinhos ao triângulo
formado pelas três lagoas Formosa, feia e Mestre d’Armas, das quais manam águas
para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata”.
No intuito de confirmar seu
propósito, Francisco Adolfo Varnhagen, então diplomata do Brasil em Viena,
licenciou-se por seis meses e, em junto de 1877, rumou para cá, percorrendo grandes
percursos em lombo de burro e também caminhando quase cinquenta quilômetros por
dia, desde bem cedo, em cada manhã. Decerto, ele se viu extenuado muitas vezes,
mas ainda assim prosseguia. Foi então que chegou à região que tanto procurava.
Tinha ele 61 anos de idade e viria a falecer no ano seguinte, não sem antes
reunir toda a sua teoria e experiências, mostrando a real necessidade da
interiorização da Capital do Brasil, transferindo-a para este Planalto Central
no Goiás. E ele mesmo editou, naquele ano, o seu livro A questão da Capital: marítima ou no interior?, nele registrando
também o que já escrevera a respeito desde 1839.
E outro importante dado cumpre-nos
recordar: em 30 de agosto de 1883, Giovanni Melchior Bosco, nosso conhecido Dom
Bosco, italiano de Turim, sonhou com a fundação de Brasília. Em parte do sonho,
ele viu aproximar-se um jovem com quem viajaria pela América Latina. Saíram da
Venezuela, atravessaram regiões de densas matas e caudalosos rios; viajaram
pela Cordilheira da America do Sul; por bosques e planícies, até que entre os
paralelos 15º e 20º viram uma enseada bastante extensa que partia do ponto onde
se formava um grande lago.
Mas, afinal, o que se deu para ser
Juscelino Kubitschek o construtor de Brasília? Sobre esse mesmo tema, já pelo
amor a esta cidade que me acolheu, vinda de Timóteo, também terra das
alterosas, escrevi para a Antologia Brasília,
colunas de concreto: sustentando as bases do amanhã (2010), organizada
pelas confreiras e amigas Meireluce Fernandes da Silva e Maria de Lourdes T. de
Almeida Fonseca, e de lá, entre outros escritos, trago alguns dados. Bem, nosso
mineiro de Diamantina, já ligado às dificuldades da vida desde bem pequeno, órfão de pai ainda aos dois anos de idade,
Juscelino Kubitschek conhecia as dificuldades e, no exemplo de sua mãe Júlia,
aprendeu a lutar. Era atento e estudioso, e, neste crescer, formara-se médico,
tornara-se político. E aconteceu que estava JK em comício de campanha
presidencial em Jataí, solo goiano, quando um eleitor lhe perguntou se, ele,
eleito, cumpriria a Constituição fazendo vir a Capital para o Planalto Central.
Ousado como era, disse que sim, embora os próprios amigos não acreditassem
nesse feito. Mas a história mostrou o contrário, e a transferência da Capital
ocorreu em 19 de setembro de 1956, quando se estabeleceram os limites do novo
Distrito Federal. As eleições de outubro de 1955 tinham dado a vitória a
Juscelino, e ele assumiu o País em 31 de janeiro do ano seguinte. E o nosso eterno presidente, em sua primeira
visita ao local que hoje é Brasília, assim proferiu: “Deste planalto central,
desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões
nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo
esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande
destino”.
Assim, no dia 21 de abril de 1960,
Brasília foi inaugurada, tendo o Presidente contado, na luta pelo seu ideal e
pelo bem do país, com apoio de valorosos candangos e o companheirismo de Bernardo
Sayão, Israel Pinheiro, Ernesto Silva, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, Roberto
Burle Marx, entre tantos outros. Mas, bem o sabemos, Juscelino Kubitschek de
Oliveira foi atingido pelo golpe militar da época e teve que se exilar na
Europa. Em junho de 1964, deixou Brasília, cidade que ele amava e pela qual tanto
lutara, só retornando em 1967, e, a poucos dias de completar 74 anos de idade, morreu
em suspeito acidente no quilômetro 165 da Via Dutra, quando viajava de São
Paulo para o Rio de Janeiro.
Então, por todo o exposto, temos
como certo que Brasília nasceu da convicção e luta de valorosos homens, vimos que
ela se constitui na realização de um sonho e desejo de tantos. Por Brasília
devemos, não apenas nós que estamos neste Planalto central, mas todos os
brasileiros, lutar para que ela continue lembrando os reais propósitos dos que
aqui depositaram sua vida, os que por este chão lutaram, tenazmente. E, assim, receba Brasília nestes seus 57 anos,
nosso amor e atenção, embora políticos e empresários desonestos a vilipendiem. A
tudo sobreponham a garra e a determinação dos que por Brasília já lutaram;
prevaleça sobretudo a vontade e a luta para que possa esta Capital ser o palco
de boas realizações para todo o povo brasileiro.
Brasília,
19 de abril de 2017.
Margarida Drumond de
Assis é professora, jornalista e autora
de mais de uma dezena de livros editados, entre romances, poesias, biografias e
outros gêneros literários. É membro da Academia Taguatinguense de Letras – ATL
e da Academia de Letras e Artes do Brasil – ALMUB www.margaridadrumond.vai.la Contato: margaridadrumond@gmail.com
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