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quinta-feira, 20 de abril de 2017

BRASÍLIA, 57 ANOS - UM POUCO DE SUA HISTÓRIA



        BRASÍLIA, 57 ANOS - UM POUCO DE SUA HISTÓRIA

Margarida Drumond de Assis

Nesta semana, o Brasil tem uma importante data da qual se lembrar e dela fazer memória: 21 de abril. Recordamos Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746), em sua luta pela liberdade na Inconfidência Mineira; Tancredo de Almeida Neves, primeiro Presidente Civil eleito após a ditadura militar que durou vinte e um anos, mas que misteriosamente morreu antes de sua posse (1985); e também nos lembramos do aniversário da Capital da República, Brasília, inaugurada que foi, em 1960, pelo também mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira (12.09.1902). Os três marcaram de forma indelével a história do Brasil, mas é sobre Brasília que prosseguiremos neste espaço, e, isto, tanto pelo que ela simboliza - enquanto cidade de rara beleza com sua arquitetura, seus espaços abertos, jardins e parques, seu céu espetacular, pelas oportunidades que oferece para estudo e trabalho, pela comunidade que aqui habita - quanto pela vida que nela pulsa incessantemente, pelo bem da Capital e do país.
É bem verdade que hoje, politicamente falando e considerando ser Brasília o centro do Poder, vivemos com ela crucial momento. A atenção do Brasil se volta, sim, para a Capital, mas, contrariamente ao que gostaríamos, isto se dá pelos fatos ligados à corrupção, quando então as palavras que se ouvem todo o tempo são: Caixa Dois,  Mensalão, Odebrecht, Delação Premiada,  Lava Jato, entre outras. Perplexos, somos levados a pensar que a crise no País, hoje, é muito mais devido a um problema econômico, parece mais uma questão de ética, pois o que se percebe é sua ausência na maioria de nossos representantes. Consequentemente, em meio a esse caos, Brasília e sua história, a sua beleza, podem perder um pouco de seu brilho.
Em um olhar pela história remota, encontramos um dos mais importantes nomes desse meio no País, o do historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen, patrono da Cadeira 39 na casa de Machado de Assis, a ABL, o paulistano de Sorocaba, de  17 de fevereiro do longínquo ano de 1816. Adirson Vasconcelos, querido amigo e confrade acadêmico nesta Capital, conceituado historiador de Brasília, em seu livro Bicentenário de nascimento de Varnhagen 1816 -2016, enalteceu esse relevante nome de nossa história, quando de sua fala no ano passado, lá mesmo em Sorocaba, na celebração da importante data. Desde que li a obra, muito desejo discorrer a respeito, e o faço agora no aniversario de nossa Capital, esta Brasília para onde vim, inicialmente nos anos 70; depois novamente nos anos 80, e, por fim, pisei neste solo querido em 14 de janeiro de 1994, e comigo meus três filhos ainda adolescentes. Quem aqui aporta, com coragem e desejoso de melhores condições de vida, pronto para novas experiências, se apaixona pela cidade. É, pois,  ocasião de recordar um pouco seu início; daí, nos chega o nome do histórico Varnhagen, também conhecido por Visconde de Porto Seguro.
Era o Rio de Janeiro a sede do país, mas já se falava em transferir a Capital para o interior; fácil não era e Varnhagen lançou um questionamento: se, à época, não haveria coragem, força política e fé para legislar a mudança da Capital. E ele próprio respondeu: “Vamos ensaiando qual é o lugar que se poderá ir considerando como substituto do Rio, ao menos para quando (Deus as arrede) a peste ou a fome ou a guerra nos obrigarem repentinamente a buscar um refúgio longe do litoral”. E, de fato, após muito refletir e de  escrever um livro, a respeito, o decidido defensor da interiorização da Capital sugeriu o local, o mesmo onde, cinquenta anos depois, Luiz Cruls “posicionaria a área da futura capital, incluído no triângulo formado pelas três lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas”, fazendo minhas as palavras do colega de jornalismo e também escritor Adirson.  Assim definiu, em 1857, Varnhagen: “(...) e isto quando a própria Providência concedeu ao Brasil uma paragem mais central, mais segura, mais sã e própria a ligar entre si os três grandes vales do Amazonas, do Prata e do São Francisco, nos elevados chapadões, de ares puros, de boas águas, e até de abundantes mármores, vizinhos ao triângulo formado pelas três lagoas Formosa, feia e Mestre d’Armas, das quais manam águas para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata”.
No intuito de confirmar seu propósito, Francisco Adolfo Varnhagen, então diplomata do Brasil em Viena, licenciou-se por seis meses e, em junto de 1877, rumou para cá, percorrendo grandes percursos em lombo de burro e também caminhando quase cinquenta quilômetros por dia, desde bem cedo, em cada manhã. Decerto, ele se viu extenuado muitas vezes, mas ainda assim prosseguia. Foi então que chegou à região que tanto procurava. Tinha ele 61 anos de idade e viria a falecer no ano seguinte, não sem antes reunir toda a sua teoria e experiências, mostrando a real necessidade da interiorização da Capital do Brasil, transferindo-a para este Planalto Central no Goiás. E ele mesmo editou, naquele ano, o seu livro A questão da Capital: marítima ou no interior?, nele registrando também o que já escrevera a respeito desde 1839.
E outro importante dado cumpre-nos recordar: em 30 de agosto de 1883, Giovanni Melchior Bosco, nosso conhecido Dom Bosco, italiano de Turim, sonhou com a fundação de Brasília. Em parte do sonho, ele viu aproximar-se um jovem com quem viajaria pela América Latina. Saíram da Venezuela, atravessaram regiões de densas matas e caudalosos rios; viajaram pela Cordilheira da America do Sul; por bosques e planícies, até que entre os paralelos 15º e 20º viram uma enseada bastante extensa que partia do ponto onde se formava um grande lago.
            Mas, afinal, o que se deu para ser Juscelino Kubitschek o construtor de Brasília? Sobre esse mesmo tema, já pelo amor a esta cidade que me acolheu, vinda de Timóteo, também terra das alterosas, escrevi para a Antologia Brasília, colunas de concreto: sustentando as bases do amanhã (2010), organizada pelas confreiras e amigas Meireluce Fernandes da Silva e Maria de Lourdes T. de Almeida Fonseca, e de lá, entre outros escritos, trago alguns dados. Bem, nosso mineiro de Diamantina, já ligado às dificuldades da vida desde bem pequeno,  órfão de pai ainda aos dois anos de idade, Juscelino Kubitschek conhecia as dificuldades e, no exemplo de sua mãe Júlia, aprendeu a lutar. Era atento e estudioso, e, neste crescer, formara-se médico, tornara-se político. E aconteceu que estava JK em comício de campanha presidencial em Jataí, solo goiano, quando um eleitor lhe perguntou se, ele, eleito, cumpriria a Constituição fazendo vir a Capital para o Planalto Central. Ousado como era, disse que sim, embora os próprios amigos não acreditassem nesse feito. Mas a história mostrou o contrário, e a transferência da Capital ocorreu em 19 de setembro de 1956, quando se estabeleceram os limites do novo Distrito Federal. As eleições de outubro de 1955 tinham dado a vitória a Juscelino, e ele assumiu o País em 31 de janeiro do ano seguinte.  E o nosso eterno presidente, em sua primeira visita ao local que hoje é Brasília, assim proferiu: “Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Assim, no dia 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada, tendo o Presidente contado, na luta pelo seu ideal e pelo bem do país, com apoio de valorosos candangos e o companheirismo de Bernardo Sayão, Israel Pinheiro, Ernesto Silva, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, Roberto Burle Marx, entre tantos outros. Mas, bem o sabemos, Juscelino Kubitschek de Oliveira foi atingido pelo golpe militar da época e teve que se exilar na Europa. Em junho de 1964, deixou Brasília, cidade que ele amava e pela qual tanto lutara, só retornando em 1967, e, a poucos dias de completar 74 anos de idade, morreu em suspeito acidente no quilômetro 165 da Via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
            Então, por todo o exposto, temos como certo que Brasília nasceu da convicção e luta de valorosos homens, vimos que ela se constitui na realização de um sonho e desejo de tantos. Por Brasília devemos, não apenas nós que estamos neste Planalto central, mas todos os brasileiros, lutar para que ela continue lembrando os reais propósitos dos que aqui depositaram sua vida, os que por este chão lutaram, tenazmente.  E, assim, receba Brasília nestes seus 57 anos, nosso amor e atenção, embora políticos e empresários desonestos a vilipendiem. A tudo sobreponham a garra e a determinação dos que por Brasília já lutaram; prevaleça sobretudo a vontade e a luta para que possa esta Capital ser o palco de boas realizações para todo o povo brasileiro.  
 
                                                                                  Brasília, 19 de abril de 2017.




Margarida Drumond de Assis é  professora, jornalista e autora de mais de uma dezena de livros editados, entre romances, poesias, biografias e outros gêneros literários. É membro da Academia Taguatinguense de Letras – ATL e da Academia de Letras e Artes do Brasil – ALMUB www.margaridadrumond.vai.la  Contato: margaridadrumond@gmail.com


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

JESUS, CAMINHO PARA A PÁSCOA

JESUS, CAMINHO PARA A PÁSCOA
Margarida Drumond de Assis

                Ao vivermos hoje o encerramento das celebrações da Semana Santa, na qual fizemos memória da Paixão e Morte de Jesus, como a Igreja nos favorece anualmente, temos agora a oportunidade maior: celebrar a sua Ressurreição.
                Recordamos o caminho de escombros que Jesus percorreu, e esta Via Crucis do Mestre se repete hoje por causa de nossas iniquidades e omissões na luta pelo bem  de todos. Nossa cruz lhe foi posta sobre os ombros, e Jesus caminhou, tropeçou, caiu. No percurso, a Mãe dolorosa ali estava e lhe abriu os braços, mas não o pode abraçar; seguiu-o em seus passos. E Maria tornou-se para nós exemplo de coragem e amor infindável. Cirineu é levado a ajudar o Mestre, por um instante; também nós devemos estar prontos a descobrir caminhos de esperança para nosso irmão. Não podemos nos omitir. Jesus retoma a cruz, Verônica enxuga-lhe a face, e Ele se faz presente em seu lenço, como o faz hoje em seu incomensurável amor. Permanece conosco, vivo no Sacramento da comunhão, no nosso amor àquele que nos pede orientação ou ajuda fraterna. Duas vezes cai Jesus no início do calvário, e de novo, mais à frente, vai ao chão; é açoitado. Afinal, está no cimo do Monte: tiram lhe as vestes, e o seu púrpuro sangue cobre-lhe a túnica. Única. Muitas vezes também nos são arrancadas as vestes quando os opressores nos tiram o direito a uma vida digna, com saúde, educação, segurança. Com duros cravos Jesus é pregado na Cruz, e em sua divindade humana (I Pd 2,24), grita. Terá o Pai abandonado Seu Filho unigênito no crucial momento? Morto, a luz vai às trevas. Descido da cruz, o Santíssimo Cordeiro jaz agora no colo da Mãe amorosa. No túmulo posto, prossegue Jesus a Missão para a qual fora enviado: mostrar-se, por Ele próprio, sua vida e testemunho, ser o Caminho, a Verdade e a Vida. E no terceiro dia, madrugada de domingo, por nós Jesus ressurge vivo, e, glorificado, retorna ao Pai. O que foi morto, com esplendor venceu a morte e ressurgiu à vida: é a Páscoa de Jesus.
                Pela trajetória do Mestre, hoje novamente clarificada à nossa mente e coração, devemos também abraçar com fé e coragem o percurso que se nos apresenta , às vezes difícil e doloroso. Ao recordarmos que Jesus, o justo e inocente foi condenado e por grande suplício passou até chegar de novo à vida, agora vida plena, vemos a importância de nos colocarmos prontos para, com Ele e n’Ele, lutarmos por uma vida melhor para cada um de nós e para a sociedade como um todo. A unidade e o respeito entre as pessoas, assim como a fraternidade, só se tornam possíveis em presença do amor, mesmo com tropeços e dificuldades na caminhada. Para isto, devemos de fato ser irmãos uns dos outros, como filhos de um mesmo Pai que ama a todos,  indistintamente.
                Conforme os Evangelistas Mateus (24, 42-44;   25, 13), Lucas (12, 12-36) e Marcos (14, 38), em Cristo vemos que a vida não é aniquilada, mas transformada, e feliz de quem, durante o caminhar, escutou e cumpriu a palavra de Deus, tornando permanente o seu Reino de amor. Porém, tal não acontece, por exemplo, com a desigualdade de direitos; quando vemos nossas  autoridade sendo desonestas e sem ética, fazendo minar os recursos e chances de vida às pessoas; quando o erro torpe embrutece e torna pessoas capazes de roubar, matar, fazer guerra, dizimando tantas vidas.
                A glória de Deus e a sua Páscoa tornam-se presentes quando o ser humano tem como assumir com dignidade a sua vida, favorecendo o mesmo para os seus. Para bem vivermos a Páscoa, recordemos que da cruz, de onde Jesus gritou “Tudo está consumado”, vem-nos também a Verdade da Ressurreição, recordemos também o que disse o Mestre: “Eu sou o Alfa e o Ômega, e eis que faço nova todas as coisas”, e, conscientes, também nós ressurgiremos.

                                                                                                         Brasília/DF, 15 abr. Páscoa de 2017

sábado, 14 de maio de 2016

A POLÍTICA BRASILEIRA NA RODA-GIGANTE

A POLÍTICA BRASILEIRA NA RODA-GIGANTE

Margarida Drumond de Assis

O momento político por que passa o país, hoje, é mesmo o de nos colocar em alerta. Vê-se bem quanto são grandes os prejuízos sociais e econômicos enfrentados pela imensa maioria da população e quanto é instável a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff governar o país e de o Senado e a Câmara cumprirem com suas funções pelo bem do povo.

O desemprego crescente atinge mais de onze milhões de brasileiros o que, naturalmente, leva à recessão, pois, sem dinheiro, as pessoas deixam de investir em compras e, quando o fazem, atêm-se ao necessário, optando pelo que está mais em conta; sem poder de compra, a alimentação é regrada, comprometendo a saúde. Resultado é que a pessoa se enfraquece, fica mais fragilizada  e adoece, e tal acontecendo vem a dificuldade  com o atendimento médico: faltam desde médicos, equipamentos para exames, a própria medicação e até o básico que lhe permitiria aguardar bem acomodado, enquanto se recuperasse. Faltam leitos, lençóis, tudo. E se o doente, em alta hospitalar, precisa da medicação prescrita, aí tudo se complica: não havendo como fazê-lo, a pessoa se vê sem expectativa para retomar sua vida, voltando a trabalhar e, assim, engrossa as estatísticas dos que vivem improdutivos para o país, sem trabalho, sem renda e precisando de ajuda. 

Todo esse quadro leva-nos à constatação de que vivemos um caos, e outro quadro aviltante vai se tornando claro: empresários e consumidores não vão mais aos bancos pedir empréstimo e se percebe que a demanda já há bem tempo está em queda, retraída; quem deseja comprar algo para si ou para sua família, quem sabe desejoso de um investimento em imóvel ou na reforma da casa, não o faz mais, enquanto de seu lado  os empresários, além de não investirem em maquinário novo, também reduzem o quadro de pessoal.

Esses dados dirigem nosso pensamento e atenção na direção de nossos governantes. Mas o que vemos? Executivo e Legislativo não mais se entendem, há uma intransigência incomum que impossibilita o diálogo, tudo resultando em acusações de uns contra os outros. Na Câmara e no Senado, cada vez se torna mais difícil encontrar quem não esteja ligado a um processo por corrupção, lavagem de dinheiro, envolvimento com tramoias tantas que envergonham os brasileiros que já pensam como farão para votar em 2018, se tão logo o representante assume o poder, lhe cresce a vaidade e o interesse em beneficiar a si mesmo.
No tocante à presidente Dilma Rousseff, quem não se lembra de quanto crescia a sua popularidade, desde sua posse em 2010? Batia recordes, com todo mundo orgulhoso por ver uma mulher no governo do país, a mesma que bravamente vencera as intempéries que surgiram em seu caminho, como a prisão na época da ditadura. E essa história somava-se ao valoroso projeto de bem governar o Brasil, fazendo-o crescer, dando atenção também às classes menos favorecidas.

Mas os anos se seguiram e cresceram os problemas, desestruturando planos, atravancando soluções possíveis pelo bem do povo. Cresceram as discussões por envolvimento de nossos políticos em escândalos , como os do Mensalão e da Operação Lava Jato. Dilma já não se achou mais, perdeu-se em meio aos que a rodeavam. E passamos a ver deputados e senadores utilizando o espaço onde antes se votavam leis  pelo bem da nação, agora como palco de acusações e injúrias de uns contra os outros - "Vossa excelência é um canalha!", já diziam - a maioria desfiando deslavadas desculpas alegando inocência. E vai um deputado preso, mais outro, vai um senador e mais outro, às vezes três, quatro deles de uma vez, chegando ao ponto de na Presidência da Câmara permanecer um deputado já acusado por lavagem de dinheiro, concussão e outros crimes, deputado Eduardo Cunha.
Fato é que cresceram os embates, tantos foram os casos de corrupção descobertos, e o assunto veio à tona. O governo Dilma se viu sem chance de governabilidade; passou a ser acusado de infringir a Constituição, o que, como temos visto, o impeachment lhe é ilegítimo.

E, agora, nove de maio de 2016, o que vemos é: de um lado a presidente que luta para não deixar o poder a ela conferido por milhões de eleitores. Tenta desvencilhar-se de ser empurrada para debaixo do tapete, aceitando a renúncia  de mandato - afina, ela vê os acontecimentos, as acusações que lhe impingem, como pura vingança de quem não a quer à frente do governo do país, ela uma mulher; ela vê as retaliações como algo injusto.
DE outro lado, via-se o relutante Cunha, declaradamente visto em vários processos, como alguém nocivo ao país. Porém, ele permanecia na casa, chegando a dirigir as votações do impeachment, embora protestos dos deputados que, naquele evento, antes de dizerem o "sim" ou o "não" quanto à saída da presidente Dilma Rousseff, dirigiam-se  indignados a Eduardo Cunha, acusando-o de ser indigno de ser o presidente da Câmara e da Mesa, naquela votação.                                 Os confrontos prosseguiam e a população, indignada, voltou às ruas, também dividida como deputados e senadores. Aceita-se ou não o Impeachment? Caos geral é o que resultou; brigas, prisões em meio às manifestações. E nesse mi mi mi sem conta,  a confusão prolongando-se. Ficam os projetos de interesse nacional esquecidos, sem votação. 

Felizmente, o Superior Tribunal Federal -STF se manifestou, na pessoa do ministro Teori Zavasck, fazendo ver o poder da Alta Corte: interveio como moderador, pondo fora da Câmara o deputado Eduardo Cunha, contando com apoio de toda a Corte: 11 x 0. O STF se fez esteio para que prevalecesse o Estado democrático de direito, impôs limites à bagunça que se via e envergonhava o país.

Mas a situação não está resolvida, há indecisões no cenário, tanto no tocante à saída da presidente, pelo prazo de 180 dias, enquanto o Supremo decide sobre o julgamento final do impeachment quanto a Câmara decide  se assume  o vice Waldir Maranhão ou se escolhem um novo presidente.

Enquanto isso vemos o vice de Dilma, Michel Temer, correr para montar seu possível governo, até já anunciando mudanças, como a redução no número de pastas no Ministério, parecendo ter como certo que continuará ele na Presidência foi Brasil, caso assuma com o afastamento da Presidente, pela votação do Senado, neste dia 11 de maio. E nos perguntamos se ela, caso afastada, terá como reunir forças políticas que lhe favoreçam retornar ao poder. 

Uma coisa fica-nos clara: toda essa turbulência, tantos desajustes como os que temos visto - á noite dormimos com um cenário e ao acordarmos temos outro - devem nos servir de sinal para melhor escolhermos nossos representantes nos próximos pleitos. Não podemos mais nos sujeitar  a um clima de insatisfação e até mesmo de desespero em meio a tanta corrupção, tantas mentiras, fazendo aumentar a tensão da população que vive em sofrimento, à revelia de uma competente  assistência à Saúde, à Educação, à Segurança... tudo emperrando o desenvolvimento da nação e o bem-estar das pessoas.


Margarida Drumond de Assis é escritora, jornalista e professora em Brasília; membro da Academia de Letras e Música de Brasília - ALMUB e da Associação Nacional de Escritores – ANE.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

EU CONTO PRA VOCÊ (Décima Terceira Parte)

EU CONTO PRA VOCÊ (Décima Terceira Parte)

 Padre Antônio de Urucânia, há 48 anos da Casa do Pai

Você que me acompanha nestes momentos de reflexões que favorecem a vivência de nossa fé, conhecerá agora mais um pouco sobre a vida e a obra de um presbítero, cujo aniversário de falecimento completou neste 22 de julho de 2011, 48 anos: Padre Antônio Ribeiro Pinto. Sim, Pe. Antônio de Urucânia foi para a Casa do Pai já há quase 50 anos, e, dos 84 anos em que esteve entre nós, mais de meio século foi dedicado à Igreja no semear a Boa Nova e no testemunho do amor, acudindo aos milhares de homens e mulheres que o procuravam, sedentos de benefícios espirituais, de curas e milagres.

Conforme ressaltado em Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção, “Pe. Antônio teve uma vida humilde a serviço do bem”. Com o nascimento dele, nascia um novo apóstolo para a Igreja. Foi no dia 2 de abril de 1879, em Rio Piracicaba/MG, filho de Fábia Maria de Jesus, mulher simples e pobre que, naquela época do difícil período da escravidão no Brasil, trabalhava em casa de “senhores”. Assim, quando nasceu o filho Antônio, e Fábia ainda muito moça, deixou o pequeno aos cuidados da sua irmã, Maria Antônia, já casada, sendo o pequeno criado no carinho do lar dos tios. E tinha ele apenas seis anos de idade quando se mudaram para Abre Campo, Arquidiocese de Mariana.

E ao pesquisar no período de um ano e meio para escrever Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção, no intuito de passar à geração de hoje e à futura um pouco sobre quem foi e o que representa Pe. Antônio Ribeiro Pinto, nome também do avô materno, percebi como ainda eram imensos e vivos, em 2003-2004, o amor e o respeito que lhe eram dedicados. Era falar o nome dele e, estando a pessoa de chapéu ou boné, tirava-o, erguendo as mãos aos céus, respeitosamente. Era pronunciar “Padre Antônio” e ver logo a voz embargada e os olhos a lacrimejar.    Ouvi vários depoimentos e foram enormes as emoções presenciadas. Compreendi, então, de imediato, que minha obra trataria da vida de um sacerdote ratificava a palavra bíblica - “és sacerdote para sempre”, com fervor e corajosamente, conforme registrei (págs. 27 – 28, 5ª . edição).

Até que conseguisse ser ordenado em 1912, por Dom Silvério Gomes Pimenta (pág. 39), Pe. Antônio passou por muitas dificuldades. Ainda assim, o jovem prosseguiu firme, buscando realizar o Chamado que um dia sentira, enquanto acompanhava uma procissão de Nossa Senhora. Por esse objetivo, antes de ser seminarista, chegou a trabalhar no Seminário, como simples empregado.

Pe. Antônio Ribeiro Pinto é exemplo de amor sem medida à Palavra de Deus. Fazia o bem indistintamente aos que o procuravam, vindo do norte ou do sul do país; viessem correspondências de países da América Latina ou da Europa, a todos atendia com amor.

É sobre esse sacerdote para quem os fiéis de todo o Brasil pedem ao Arcebispo de Mariana, Dom Geraldo Lyrio Rocha, a abertura do processo de Beatificação, que falarei mais intensamente nos próximos números de seu Classivale, e farei isto a partir de Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção; nele buscarei outras reflexões . Como frisou Dom José de Aquino Pereira, bispo emérito de São José do Rio Preto, São Paulo, quando do lançamento do livro naquela cidade, em 2006, “a obra é uma dádiva de Deus, pois permite o reavivamento das mensagens vivenciadas e espalhadas pelo Pe. Antônio de Urucânia: fé no poder de Jesus e devoção a Nossa Senhora das Graças e à Medalha Milagrosa” (p. 11).  

(Crônica para o dia 30. jul. 2011).

e-mail: margaridadrumond@gmail.com

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Eu conto pra você (Décima segunda parte)

Eu conto pra você (Décima segunda parte)

Não posso ir, serve o irmão?

Ao concluir um novo quadro de reflexões nestas quatro crônicas sobre uma vida de intimidade com Deus, por meio da oração, da adoração ao Santíssimo e de serviço ao próximo, servindo-o naquilo que ele precisa, apresento-lhe um fato que se deu com Dom Luciano Mendes de Almeida e que ele contou na IV Assembleia do Regional Sul 3, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em junho de 2006, a apenas dois meses de seu falecimento.

Dom Luciano falava sobre “Família e comunidade” e explicava sobre a dificuldade até de se ter uma religião em meio a tanta fragmentação e conflito. Em dado momento, mostrando a necessidade de nos preocuparmos com o que o outro realmente precisa, contou: “(...) eu estava celebrando, em Congonhas, no meio da praça, quando uma senhora começa a gritar: pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, roubaram o meu filho, roubaram o meu filho’. Eu parei a Missa e disse: ‘olha, essa senhora, ela perdeu o seu filho! Eu queria que vocês a ajudassem a encontrar. Ele é pequeno, vestido de azul, idade de quatro anos’. Depois de um certo tempo, encontraram a criança, todos cantavam, não sabiam se choravam ou se riam porque tinham encontrado a criança. O pessoal foi embora pensando mais na criança perdida do que na eucaristia. Se nós estivéssemos nesta situação e entendêssemos bem mais o ser humano que precisa de atenção! - frisou dom Luciano. E acrescentou: - O projeto de Deus é todos nós aqui, somos todos a mesma família, constituída por Deus (...)” (p. 855).

Um outro exemplo sobre dom Luciano dando testemunho de que devemos nos aproximar do irmão, na necessidade que ele tem, está na parte VI de Dom Luciano, especial dom de Deus, pág. 269, conforme contou a pedagoga do centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, em São Paulo, Marilda dos Santos Lima. Ela recordou que um grupo lutava por moradia e ocupou um terreno no Jardim Imperador, isto na época de dom Luciano bispo auxiliar de São Paulo. Alguns moradores, descontentes, começaram a se opor à chegada daqueles que tinham vindo das favelas. “O fato foi parar nos jornais e agitavam-se todos- conta Marilda. – Dom Luciano, fosse meia-noite ou uma hora da madrugada, passava lá na Ocupação. Atrasava os compromissos dele, mas fazia o que achava que devia ser feito (...). Assim é que em uma noite – com ele lá nos barracões, nós cantando, rezando (...), os revoltosos do bairro começaram a jogar pedras em nossa direção, e uma pedra pegou a testa de Dom Luciano. Eu vi isso, e todo mundo chorando, preocupado, e saía sangue do machucado. Mas ele, naquele momento, apenas dizia: ‘não reajam, não reajam!”;

Não sei se o amigo já tem o livro Dom Luciano, especial dom de Deus; se o tem, sabe que são 1.022 páginas e então compreenderá o que digo agora. Em certa parte do livro, cito um caso contado por Dom Luciano mesmo e que trago ao encerrar esta crônica, mas não me lembro do nº da página exatamente. Havia uma senhora, na arquidiocese dele, mulher simples, que sempre o convidava para que ele fosse almoçar na casa dela. No entanto, tantos eram os compromissos, e ele nunca podia ir. Certo dia, ele lhe falou: “Não posso ir. Serve o irmão?” E ela concordou, certa de que Dom Luciano se faria representar por um dos irmãos dele. Aconteceu que no tal dia, bateu à porta um pobre, e ela o acolheu. “Disse-lhe: vamos almoçar daqui a pouco, mas estou esperando o irmão de meu amigo”. Pensam que chegou outra pessoa? Não, claro. O irmão era o pobre, um dos muitos amigos de dom Luciano e que viam nele um pai, e que, de fato, ele tinha como um irmão.

Para você o abraço fraterno da Margarida Drumond de Assis.(Para 12.07.2011)

(Crônica escrita em 14 maio 2011).

e-mail: margaridadrumond@gmail.com

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Eu conto pra você (Décima primeira parte)

Eu conto pra você  (Décima primeira parte)

 Os amados Deus

Converso hoje com você sobre algumas passagens de vida muito especiais de pessoas que nos lembram a intimidade do encontro com Jesus, portanto, uma vida sem fim, vida plena, e, por isto, muito amados de Deus.

Na página 853 de Dom Luciano, especial dom de Deus, sob o título “Maria entendia os caminhos de Deus e permanecia na confiança”, registrei uma parte da Conferência de Dom Luciano Mendes, no 15º Congresso Eucarístico Nacional, em 2006, em  Florianópolis: “(...) Vejam Maria, nossa Mãe querida: sempre identificada com a vontade de Deus, guardava tudo no seu coração, entendia os caminhos de Deus e permanecia na confiança. E nós vemos, assim, as grandes pessoas da humanidade, identificadas na Eucaristia, com essa força transformadora da História”. E então, Dom Luciano cita Dom Oscar Romero e também o cardeal preso injustamente no Vietnã, por mais de dez anos: “Se nós pudéssemos lembrar o Van Thuan, meu Deus! Que homem, sempre alentado na Eucaristia, cantando o dia inteiro para a Eucaristia, aprofundando no silêncio os mandamentos do Senhor (...). Você se lembra de Madre Teresa de Calcutá? Quando o papa realizou a sua beatificação, ele disse: ‘Teresa de Calcutá não tinha consolação na oração. Ela permanecia na presença de Cristo, sem consolação. Era o tempo que ela dava totalmente a Deus, mas sem aquela espécie de emoções internas. Não tinha. Uma santa! Assumia realmente o drama da vida humana (...)”.

Nesse contexto, cito outro santo sacerdote, muito conhecido de grande parte de vocês, por meio do que contam os seus pais e outros familiares, também falecido como Dom Luciano, e já há 47 anos. É Padre Antônio Ribeiro Pinto, de quem escrevi o livro Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção. Era comum Pe. Antônio recomendar aos milhares de fiéis que o procuravam, ansiosos por suas bênçãos milagrosas, que antes deviam se confessar e comungar, para, depois, receberem a bênção e, então, a Graça, conforme fosse a vontade de Deus, na intercessão de Pe. Antônio junto a Nossa Senhora das Graças. Em sua vida de luta, discriminação e de muito sofrimento antes de ordenar-se sacerdote - e o sofrimento ainda o acompanhou por anos! - tantas foram as dificuldades  surgidas, Pe. Antônio de Urucânia tornou-se perfeito instrumento de Deus que lhe cobriu de dons especiais.

No capítulo 13, pág. 94, da 5ª edição de Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção, assim escrevi a partir de pesquisas e depoimentos: “Um caminhão estaciona e, da carroceria transformada em vários assentos para os romeiros, descem, apressadas, dezenas de pessoas, receosas que estão de não conseguirem alcançar o horário da bênção (...). Ali perto, chega outro veículo, e, neste, alguém está acorrentado; Pe. Antônio percebe logo e manda desamarrar. Quem conhecia o doente está temeroso (...). ‘Desamarrem ele, estou mandando, em nome de Nossa Senhora das Graças!” é a vos forte de padre Antônio, sobressaindo-se enérgica. Em pouco, o que era tido como louco, já está calmo, aos pés do virtuoso sacerdote, sendo abençoado, curando-se. Lágrimas nos olhos, a voz embargada de tantos, a oração da Ave-Maria ecoa”.

Você se emocionou com essa força de Deus, agindo por meio de seu escolhido, não é mesmo? Também me emociono, sempre que leio tantas passagens. São presentes de Deus para nós.

(Crônica escrita em 14 maio 2011).

e-mail: margaridadrumond@gmail.com

sábado, 19 de dezembro de 2015

Eu conto pra você (Décima Parte)

Eu conto pra você (Décima Parte)

 Encontrar Jesus e encontrar o irmão

No último encontro, eu lhe falava sobre a presença real de Jesus ente nós, presença d’Ele mesmo, nas espécies do pão e do vinho, no altar eucarístico. E então vimos que para viver uma experiência de encontro com Jesus é preciso coragem e fé, tendo Maria como modelo. Afinal, no Sim que ela disse ao Anjo Gabriel quando ele lhe dizia que fora ela a escolhida para Mãe do Salvador, portanto “Cheia de Graça”, tornou-se imediatamente tempo do próprio Deus e Jesus habitou nela.

Hoje, convido você a refletir comigo sobre quantas vezes perdemos oportunidade de estar diante de Jesus no Sacrário, em momentos de Adoração. No entanto, basta procurarmos o Santíssimo na capela e nos deixarmos por uns momentos pertinho d’Ele, ali, real, sempre a nos esperar.  Em nosso dia a dia, tão cheio de compromissos, mal conseguimos parar, para a oração, à noite; entretanto, como é grande a alegria interior que sentimos quando nos permitimos um tempinho diante de Jesus!

Trago um dos depoimentos que ouvi para escrever Dom Luciano, especial dom de Deus, pág. 47, parte do que disse o Prof. Afonso Liguori, na época meu colega na Universidade Católica de Brasília, e que teve a felicidade de conviver com Dom Luciano Mendes de Almeida no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma. Dom Luciano lá se encontrava, no início de seu sacerdócio. Disse o Prof. Liguori: “O Padre Mendes era, em primeiro lugar, o maior exemplo que nós temos de um homem de oração. Não me esqueço de quantas vezes eu e meus colegas de seminário, passando em frente à porta da nossa capela, encontrávamos uma pessoa normalmente vestida  de sotaina preta – todos nós vestíamos batina naquela época - rezando horas a fio, durante o dia, depois do almoço e, por que não dizer, à noite, às dez horas ou mais (...)”.

É na vivência da oração e da adoração a Jesus eucarístico que encontramos força para uma vida mais próxima do que Deus quer de nós, e, se assim fazemos, também nós servimos de exemplo para quem está ao nosso lado. Foi esse o testemunho de vida de dona Emília Mendes para os filhos, no qual se espelhou Dom Luciano. Em um dos escritos dele, falando de sua mãe, Dom Luciano disse que “em Deus, ela encontrava as energias para devotar-se não só à família, mas às necessidades espirituais e materiais do próximo. Subia a encosta da favela e entrava em contato com a miséria, de modo tão discreto, que muitas  vezes nem percebíamos.” Em sua humildade, dona Emília Mendes foi catequista nas favelas do Rio de Janeiro, por 50 anos, conforme registrei, na Parte II e Dom Luciano, especial dom de Deus.

Uma vivência, como a de dona Emília e do filho que nela se espelhou para dedicar-se à Igreja numa vida “em nome de Jesus”, confere com as palavras de dom Luciano num dos retiros para os presbíteros da Arquidiocese de Mariana, em 1988, ano em que assumiu aquela arquidiocese. Ele citou as palavras de Paulo aos Filipenses sobre Jesus: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus”. E então Dom Luciano lembrou que viver em nome de Jesus “é mostrar, pela presença, que você ama! Assim fez Jesus”. E citou o nascimento do Mestre “pobre com os pobres – sem dinheiro para hotel. Jesus quis não ter”. Pontuou também as passagens de Jesus com os pescadores; Jesus e o sofrimento do estrangeiro; Jesus lavando os pés dos outros, e muitos outros exemplos conforme relatado na pág. 532.

Para você o abraço fraterno da Margarida Drumond de Assis. (Para 28.062011).

e-mail: margaridadrumond@gmail.com