Eu conto pra você (Décima segunda parte)
Não posso ir, serve o irmão?
Ao concluir um novo quadro de reflexões nestas quatro
crônicas sobre uma vida de intimidade com Deus, por meio da oração, da adoração
ao Santíssimo e de serviço ao próximo, servindo-o naquilo que ele precisa,
apresento-lhe um fato que se deu com Dom Luciano Mendes de Almeida e que ele
contou na IV Assembleia do Regional Sul 3, da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil, em junho de 2006, a apenas dois meses de seu falecimento.
Dom Luciano falava sobre “Família e comunidade” e
explicava sobre a dificuldade até de se ter uma religião em meio a tanta
fragmentação e conflito. Em dado momento, mostrando a necessidade de nos
preocuparmos com o que o outro realmente precisa, contou: “(...) eu estava
celebrando, em Congonhas, no meio da praça, quando uma senhora começa a gritar:
pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, roubaram o meu filho, roubaram o meu
filho’. Eu parei a Missa e disse: ‘olha, essa senhora, ela perdeu o seu filho!
Eu queria que vocês a ajudassem a encontrar. Ele é pequeno, vestido de azul,
idade de quatro anos’. Depois de um certo tempo, encontraram a criança, todos
cantavam, não sabiam se choravam ou se riam porque tinham encontrado a criança.
O pessoal foi embora pensando mais na criança perdida do que na eucaristia. Se
nós estivéssemos nesta situação e entendêssemos bem mais o ser humano que
precisa de atenção! - frisou dom Luciano. E acrescentou: - O projeto de Deus é
todos nós aqui, somos todos a mesma família, constituída por Deus (...)” (p. 855).
Um outro exemplo sobre dom Luciano dando testemunho de
que devemos nos aproximar do irmão, na necessidade que ele tem, está na parte
VI de Dom Luciano, especial dom de Deus,
pág. 269, conforme contou a pedagoga do centro Social Nossa Senhora do Bom Parto,
em São Paulo, Marilda dos Santos Lima. Ela recordou que um grupo lutava por
moradia e ocupou um terreno no Jardim Imperador, isto na época de dom Luciano
bispo auxiliar de São Paulo. Alguns moradores, descontentes, começaram a se
opor à chegada daqueles que tinham vindo das favelas. “O fato foi parar nos
jornais e agitavam-se todos- conta Marilda. – Dom Luciano, fosse meia-noite ou
uma hora da madrugada, passava lá na Ocupação. Atrasava os compromissos dele,
mas fazia o que achava que devia ser feito (...). Assim é que em uma noite –
com ele lá nos barracões, nós cantando, rezando (...), os revoltosos do bairro
começaram a jogar pedras em nossa direção, e uma pedra pegou a testa de Dom
Luciano. Eu vi isso, e todo mundo chorando, preocupado, e saía sangue do
machucado. Mas ele, naquele momento, apenas dizia: ‘não reajam, não reajam!”;
Não sei se o amigo já tem o livro Dom Luciano, especial dom de Deus; se o tem, sabe que são 1.022
páginas e então compreenderá o que digo agora. Em certa parte do livro, cito um
caso contado por Dom Luciano mesmo e que trago ao encerrar esta crônica, mas
não me lembro do nº da página exatamente. Havia uma senhora, na arquidiocese
dele, mulher simples, que sempre o convidava para que ele fosse almoçar na casa
dela. No entanto, tantos eram os compromissos, e ele nunca podia ir. Certo dia,
ele lhe falou: “Não posso ir. Serve o irmão?” E ela concordou, certa de que Dom
Luciano se faria representar por um dos irmãos dele. Aconteceu que no tal dia,
bateu à porta um pobre, e ela o acolheu. “Disse-lhe: vamos almoçar daqui a
pouco, mas estou esperando o irmão de meu amigo”. Pensam que chegou outra
pessoa? Não, claro. O irmão era o pobre, um dos muitos amigos de dom Luciano e
que viam nele um pai, e que, de fato, ele tinha como um irmão.
Para você o abraço fraterno da Margarida Drumond de Assis.(Para 12.07.2011)
(Crônica escrita em 14 maio 2011).
e-mail: margaridadrumond@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário