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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Eu conto pra você (Décima segunda parte)

Eu conto pra você (Décima segunda parte)

Não posso ir, serve o irmão?

Ao concluir um novo quadro de reflexões nestas quatro crônicas sobre uma vida de intimidade com Deus, por meio da oração, da adoração ao Santíssimo e de serviço ao próximo, servindo-o naquilo que ele precisa, apresento-lhe um fato que se deu com Dom Luciano Mendes de Almeida e que ele contou na IV Assembleia do Regional Sul 3, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em junho de 2006, a apenas dois meses de seu falecimento.

Dom Luciano falava sobre “Família e comunidade” e explicava sobre a dificuldade até de se ter uma religião em meio a tanta fragmentação e conflito. Em dado momento, mostrando a necessidade de nos preocuparmos com o que o outro realmente precisa, contou: “(...) eu estava celebrando, em Congonhas, no meio da praça, quando uma senhora começa a gritar: pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, roubaram o meu filho, roubaram o meu filho’. Eu parei a Missa e disse: ‘olha, essa senhora, ela perdeu o seu filho! Eu queria que vocês a ajudassem a encontrar. Ele é pequeno, vestido de azul, idade de quatro anos’. Depois de um certo tempo, encontraram a criança, todos cantavam, não sabiam se choravam ou se riam porque tinham encontrado a criança. O pessoal foi embora pensando mais na criança perdida do que na eucaristia. Se nós estivéssemos nesta situação e entendêssemos bem mais o ser humano que precisa de atenção! - frisou dom Luciano. E acrescentou: - O projeto de Deus é todos nós aqui, somos todos a mesma família, constituída por Deus (...)” (p. 855).

Um outro exemplo sobre dom Luciano dando testemunho de que devemos nos aproximar do irmão, na necessidade que ele tem, está na parte VI de Dom Luciano, especial dom de Deus, pág. 269, conforme contou a pedagoga do centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, em São Paulo, Marilda dos Santos Lima. Ela recordou que um grupo lutava por moradia e ocupou um terreno no Jardim Imperador, isto na época de dom Luciano bispo auxiliar de São Paulo. Alguns moradores, descontentes, começaram a se opor à chegada daqueles que tinham vindo das favelas. “O fato foi parar nos jornais e agitavam-se todos- conta Marilda. – Dom Luciano, fosse meia-noite ou uma hora da madrugada, passava lá na Ocupação. Atrasava os compromissos dele, mas fazia o que achava que devia ser feito (...). Assim é que em uma noite – com ele lá nos barracões, nós cantando, rezando (...), os revoltosos do bairro começaram a jogar pedras em nossa direção, e uma pedra pegou a testa de Dom Luciano. Eu vi isso, e todo mundo chorando, preocupado, e saía sangue do machucado. Mas ele, naquele momento, apenas dizia: ‘não reajam, não reajam!”;

Não sei se o amigo já tem o livro Dom Luciano, especial dom de Deus; se o tem, sabe que são 1.022 páginas e então compreenderá o que digo agora. Em certa parte do livro, cito um caso contado por Dom Luciano mesmo e que trago ao encerrar esta crônica, mas não me lembro do nº da página exatamente. Havia uma senhora, na arquidiocese dele, mulher simples, que sempre o convidava para que ele fosse almoçar na casa dela. No entanto, tantos eram os compromissos, e ele nunca podia ir. Certo dia, ele lhe falou: “Não posso ir. Serve o irmão?” E ela concordou, certa de que Dom Luciano se faria representar por um dos irmãos dele. Aconteceu que no tal dia, bateu à porta um pobre, e ela o acolheu. “Disse-lhe: vamos almoçar daqui a pouco, mas estou esperando o irmão de meu amigo”. Pensam que chegou outra pessoa? Não, claro. O irmão era o pobre, um dos muitos amigos de dom Luciano e que viam nele um pai, e que, de fato, ele tinha como um irmão.

Para você o abraço fraterno da Margarida Drumond de Assis.(Para 12.07.2011)

(Crônica escrita em 14 maio 2011).

e-mail: margaridadrumond@gmail.com

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